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Relato
04 March 2002
by Danilo Souza

Cheguei em Itaquiraí no dia 13 de Maio de 2002 com um objetivo, desenvolver um trabalho de Inclusão Digital, mas que pudesse se tornar reaplicável em outras localidades e também por outras pessoas. Acreditando na possibilidade de mudar a cara da história, encaramos que a melhor ferramenta para o desenvolvimento humano é a educação e a arte e que a tecnologia seria nosso instrumento principal de alcançarmos a educação de qualidade.

Iniciamos o projeto em uma sala (3,0m X 4,0m) que era cedida pela Prefeitura de Itaquiraí, e lá tínhamos três computadores (celeron 700 mhz, Pentium 166, 486, cada um com 64 Mb RAM, 32 Mb RAM e 32 Mb RAM respectivamente) Não contávamos com plano algum sobre as potencialidades da cidade, suas forças culturais e educacionais, não havia movimentos culturais regionalistas tradicionais que pudessem oferecer um ponto de partida, não sabíamos por onde começar.

A primeira ação foi então visitar um órgão de atendimento técnico rural para o desenvolvimento sustentável, o IDATERRA. No IDATERRA onde conheci o Rogério, na época coordenador da região e do escritório local, ele marcou uma reunião com a equipe de extensionistas rurais que trabalhavam no escritório, e então comecei a fazer as primeiras anotações sobre o rumo que o projeto iria tomar. O Rogério foi importante no início para que o projeto tivesse uma forma de atuação e definisse como ponto central o uso do computador como um meio de acesso à educação, informação, e cultura. Agora faltava definir uma metodologia pedagógica que pudesse dar sustentação a idéia, fazendo gerar resultado efetivo, transformar é a palavra, onde tudo começou. Esta primeira etapa durou uns dois meses até realmente existir o projeto, daí então passamos a pensar em dias e horas de atendimento, método de atendimento, esta fase a Cristina que é pedagoga foi muito importante para definição nesta hora.

Sentamos em reunião durante dias com algumas lideranças do município, o Gerente de Educação, A Assessora de Promoção Social a Primeira Dama, O Gerente de Desenvolvimento, Os coordenadores da Bolsa Escola, e do IDATERRA. Naquele momento já passava pela minha cabeça uma idéia, criar um Centro de Cultura e Educação que amparasse um projeto de Teatro, de Protagonismo Juvenil, Inclusão Digital, Contadores de Histórias, e que pudéssemos reativar a Biblioteca da cidade, que tinha um acervo público esquecido no departamento de esporte e estava se perdendo, era preciso fazer algo. Era preciso construir um trabalho educacional que pudesse despertar nos jovens o valor da cultura, nada poderia ser forçado, tudo deveria ser desenvolvido dentro de um planejamento onde queríamos construir um forte pilar e depois erguer o prédio.

Em Julho de 2002, abrimos na cidade dois projeto que tinha a Inclusão digital seu carro chefe, O Programa Sem Medo de Aprender e o Projeto Internet. O Programa Sem medo de Aprender ganhou este nome, pois muitas pessoas ainda resistem em ter um contato com o computador, acredito que seja pela falta de acesso, e pelo representa o novo na vida das pessoas, iríamos oferecer o acesso e trabalhar o medo durante as atividades, que sempre tínham uma base humanista. O Programa sem Medo de Aprender atendeu durante 3 meses 25 pessoas entre crianças, jovens e adultos na mesma sala, aproximando as diferentes realidades, com o objetivo de trocar as experiências , oferer o acesso a informática, e divulgar o projeto, pois cada pessoa atendida era de um local da cidade, e isto também serviu para que estas pessoas comunicassem a existência do projeto em suas comunidades.

Este projeto funcionava duas vezes por semana, com objetivo de formar um grupo com maior intensidade para se tornarem voluntários em outros projetos, deste curso 19 pessoas concluíram em setembro de 2002, e hoje todos eles freqüentam o Centro de Cultura e Educação, e alguns deles são voluntários no projeto de Protagonismo Juvenil.

O Projeto Internet era um pouco diferente, ele tinha o objetivo de atender o público em geral, oferecer através do uso da informática e internet o acesso à educação, literatura, arte e informação. Observávamos também alguns adolescentes que se mostravam mais interessados e já estávamos pensando em um projeto de protagonismo juvenil, jovens sendo sujeitos de ações culturais e educacionais na cidade.

O Projeto internet atende diariamente 30 a 40 crianças e adolescentes no uso da informática, seu objetivo é estimular a o gosto pelo saber, pela literatura e arte, através da internet colocamos a disposição dos alunos as informações e conhecimentos, visitamos museus, como o do Louvre, em Paris na França, por exemplo, páginas de poetas e escritores brasileiros consagrados, obras de artistas plásticos reconhecidos, como Tarcila do Amaral, Pablo Picasso e outros que entendemos ser importante para o crescimento de crianças e adolescentes, pois só a informação dará a eles a autonomia de pensar, levando eles a compreender o que chamamos de Sociedade da Informação.

Conforme planejamos ao longo dos dois primeiros projetos lançamos na cidade um projeto de protagonismo juvenil, que teria características de ser aberto a qualquer pessoa, não podendo limitar o número de pessoas que freqüentariam as atividades do projeto, e que seria desenvolvido através de ações, debates, discussões sobre textos voltados a formação dos jovens, como sexualidade, drogas, profissionalismo, filosofia, o grupo criou um projeto de teatro. O Objetivo era levar o adolescente ao contato com as diferentes artes e ações existentes para amadurecer um pensar crítico e construtivo em cada um, respeitando seus limites e estimulando suas curiosidades, o projeto nasceu com o objetivo de levar o jovem a um crescimento maduro e seguro, dando a ele informações que futuramente irão lhes trazer segiurança em momentos de decisões sobre sua vida. Em novembro o Projeto de Protagonismo Juvenil se consolidou como um importante segmento, e a idéia de criamos um Centro de Cultura e educação a cada dia se tornava mais forte.

O Grupo se organizou para desenvolver nos meses de novembro e dezembro algumas ações que pudesse motivar a atuação do jovem na cidade, que ele pudesse agora ser visto como um membro ativo e capaz de opinar e agir para melhoria da cidade. A Primeira ação foi arrecadar livros para reabrir a biblioteca municipal, pois era muito difícil para eles que são estudantes desenvolverem pesquisas e também desenvolverem o interesse pela leitura já que na cidade não existia uma biblioteca de acesso. Foram arrecadados pouco mais de 500 livros, entre literatura, agricultura familiar, história, livros técnicos e outros, recebemos uma doação vinda da Biblioteca da Câmara dos Deputados Federais de aproximadamente 300 livros.

A segunda ação era um desafio para o Projeto que tinha três meses de existência, provando mais uma vez que o adolescente é uma força de ação que deve ser notada e compreendida como importante para a sociedade. Montamos nosso primeiro espetáculo, agora já tínhamos o apoio da educadora Katiana, ela era contratada pela prefeitura e começou a trabalhar no projeto. Era um espetáculo infantil que contava a história de um coelho que chega em casa cansado do trabalho, e quando vai abrir sua porta havia um grilo na fechadura, daí a confusão de que o grilo seria uma assombração, logo depois se envolvem na história, a vaca, o cachorro, o gato e pato, até que o galo resolve verificar a fechadura e encontra o grilo lá dentro, resolvendo todo mistério.

A peça é contada de forma lúdica e criativa, envolvendo as crianças no decorrer de sua apresentação. Este espetáculo foi apresentado aos Centros de Educação Infantil da cidade. Foi um momento importante para afirmação do grupo. Ainda, nós trabalhávamos na mesma sala, e o projeto já apresentava a necessidade de um local maior de atendimento, atendemos cerca de 60 a 80 crianças por dia no Centro de Cultura e Educação, a sala que trabalhávamos não suportava mais o númeero de crianças que trabalhávamos pois funcionavam no mesmo prédio secretaria de agricultura, obras, planejamento e a junta militar.

Para o encerramento do ano, organizamos o Dia Internacional do Voluntário no dia 05 de dezembro de 2002. Para realização contamos com o apoio da UNV – United Nations Volunteers no Brasil e da Prefeitura Municipal.

Durante o dia o projeto organizou uma feira cultural que pudesse expor obras dos artistas locais e de artesanato local, levamos os computadores para rua e oferecemos aulas de informática também para as pessoas que passavam ali, e no fim do dia lançamos o primeiro livro do Projeto “Voluntário pela Paz”, impresso com a ajuda de recursos da UNV – United Nations Volunteers no Brasil. O Livro era composto por poesias de crianças que estudam nas escolas da rede pública e estadual e de uma escola particular do município. Nosso objetivo era envolver a comunidade escolar no evento, estreitando a relação entre elas através do lançamento do livro, e isto foi possível.

O lançamento do livro foi importante para o projeto, pois muitos pais das crianças que frequentavam o projeto começavam a conhecer o projeto, e acreditavam mais no trabalho, e o que foi mais importante, ver crianças dando autógrafos nos livros, o acreditamos ter sido muito importante para auto estima de cada uma. Em janeiro de 2003 começamos a pensar na criação de um espaço que fosse de uso exclusivo para um Centro de Cultura e Educação. Para isto precisávamos ter material e trabalho suficiente para conseguirmos um local, e trabalho era o que não faltava e não falta.

A primeira ação foi criar a biblioteca da cidade. Fomos até o Prefeito e outras lideranças e apresentamos o projeto de um centro de Cultura, e uma biblioteca que atendesse toda comunidade e começamos a discutir. Com o acervo público, e mais os livros que o projeto de Protagonismo Juvenil arrecadou, contavamos com quase 3000 livros e o projeto já tinha o envolvimento de 25 adolescentes, era uma questão de tempo.

No mês de março de 2003 iniciamos um projeto que ao mesmo tempo trabalhava a importância da atuação do adolescente como sujeito de uma ação e também o esclarecimento do Estatuto da Criança e do Adolescente na comunidade. Criamos então o JECA - Jornal do Estatuto da Criança e do Adolescente que é desenvolvido pelos adolescentes do projeto. No JECA participam 12 adolescentes que fazem todo trabalho de escrever os textos, diagramar e distribuir. Uma vez por semana nos encontramos para elaborar as pautas, simulando a redação de jornal, é dividido as pautas e cada um escreve sua matéria, fazemos um rodízio entre os adolescentes para escrever as matérias. O JECA tem o apoio do comércio local para sua impressão, onde todo mês também fazemos um rodízio entre os comércios assim envolvê-los nas ações do projeto.

O objetivo do JECA é despertar nos comerciantes a importância da participação deles na elaboração de políticas públicas no desenvolvimento de crianças e adolescentes como empregadores que são, conscientizando-os a não empregarem menores de 14 anos como prevê o estatuto, e a implantar e participar da crianção de programas de Emprego Aprendiz, para adolescentes em idade entre 14 e 18 anos.

O JECA esta na sua quinta edição e a cada mês trata de um assunto diferente, onde já falamos de crianças e situação de guerrilha, exploração infantil, trabalho infantil doméstico entre outros assuntos que ainda precisam ser debatidos sobre direitos e deveres de crianças e adolescentes. Analisando que a cidade possui características rurais, onde sua economia gira em torno do mercado rural e agrário o projeto vem conquistando a simpatia de algumas pessoas e assim vem desenvolvendo seu trabalho.

No mês de abril de 2003 realizamos um 1º Saral na Praça, uma manifestação cultual de incentivo a literatura e a música que contou com a participação de quase 300 estudantes que participaram da mais variadas formas. Tivemos alguns alunos recitando de Carlos Drumonnd de Andrade, Cecília Meireles entre outros, alguns fizeram poesias próprias, com as música tivemos a apresentação de que interpretaram desde Elis Regina a Renato Russo. O Saral foi o primeiro movimento cultural que teve como objetivo estimular o aprendizado e o conhecimento dos grandes poetas, escritores e músicos nacionais, e a participação dos adolescentes como formadores de opinião, o que é mais importante.

Com os trabalhos realizados cada vez mais ficava perto o espaço que queríamos para um Centro de Cultura e Educação, o que acabou acontecendo no dia 14 de junho de 2003, quando foi oficialmente inaugurado o Centro de Cultura e Educação de Itaquiraí.

A Inauguração foi aberta com a 1ª Mostra de Artes Plásticas da cidade com a exposição do Artista Plástico Rogério Souza, que é aluno do projeto de protagonismo juvenil. rogério é portador de uma deficiência mental, mas não sabemos qual diagnóstico. Sabemos que ele procura se esforçar para se desenvolver o que não é fácil para ele, e procuramos adaptar algumas ações do projeto para que ele possa participar. Suas pinturas são feitas em técnica óleo sobre tela, e na inauguração tivemos também um show acústico de música popular brasileira Gustavo e Guilherme Valente.

O Centro de Cultura e Educação tem no seu funcionamento os Projetos, Protagonismo Juvenil, que atende hoje 28 adolescentes duas vezes por semana, o Projeto Internet que atende em média 40 crianças por dia em seus atendimentos no computador, o projeto recebeu agora uma doação de um micro computador (Pentium II, 64 Mb RAM).

O Projeto Contadores de Histórias que funciona três vezes por semana onde a Cristina a katiana e Eu nos revezamos nas histórias, contando histórias de cordel, mitologia grega e literatura popular, este projeto funciona paralelo ao funcionamento do Projeto Internet pois no momento em que as crianças não estão sendo atendidas na sala de informática elas ficam ouvindo histórias e também são distribuídos livros que estimulem a prática da leitura entre elas.

Com a inauguração do Centro criamos da Biblioteca Municipal que conta com um acervo público de aproximadamente 3000 mil livros e em julho tivemos uma doação da Associação Biblioteca Cidadã de 1.134 livros, totalizando mais de 4.000 livros para o acervo público, o Centro de Cultura e Educação de Itaquiraí tem hoje um pleno funcionamento de ações que valorizem a prática da cultura e da educação entre crianças e adolescentes na cidade.

O Projeto de Protagonismo Juvenil montou seu segundo espetáculo teatral, que aborda o assunto dependência química, drogas e suas conseqüências que foi apresentada na semana nacional de combate ao uso de drogas. A segunda edição do saral também já esta definida para esta mesma semana. Para a quarta edição do JECA, estaremos aderindo a uma Campanha da OIT – Organização Internacional do Trabalho, ANDI – Agência de Notícias dos Direitos da Infância e da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança contra o Trabalho Infantil Doméstico.

O Projeto apresentou a peça Alguém tem culpa? Na 2ª Conferência Regional dos Direitos da Criança e do Adolescente, e então recebemos o convite de apresentar a peça na 4ª Conferência Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente que será realizada no dia 11 de setembro de 2003 em Campo Grande.

A 5ª edição do jeca também já foi impressa e entregue na comunidade local, o projeto atua no desenvolvimento do jovem, na educação de qualidade, no acesso a informação, na discussão de ações que protagonizem o jovem como um sujeito, iniciamos nossas atividades como voluntários e hoje o projeto tem reconhecimento no município e podemos desta forma oferecer uma forma mais divertida de fazer educação. Ainda temos muito a realizar no projeto e na comunidade.

São muitas as crianças que ainda trabalham vendendo sorvetes, ou em casas de família, e o nosso objetivo é mudar esta estatística na cidade.